“Hunt you down without mercy
Hunt you down all nightmare long
Feel us breathe upon your face
Feel us shift, every move we trace
Hunt you down without mercy
Hunt you down all nightmare long”
Metallica – All Nightmare Long
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Estava confuso com tudo o que ouvia, afinal, quem era ela? O que aconteceu com sua mãe anos atrás? O que diabos ela havia se tornado? E por que não podia parar?
Encostei-me contra a parede da casa, tentando pensar em alguma coisa, querendo me acalmar, mas não conseguia imaginar respostas para isso. Decidi que o melhor agora não seria interromper essa conversa batendo à porta da casa, então resolvi voltar para a hospedaria.
Não consegui dormir naquela noite, ainda tentando imaginar o que teria feito aquilo ao tio de Katherine, ou Katz, como seu pai a havia chamado.
O dia estava clareando, olhei pela janela do quarto e já podia ver o movimento dos trabalhadores que iniciavam sua árdua jornada nos campos. Não conseguia mais ficar naquele quarto com tantas perguntas, precisava conversar com ela. Subitamente ouvi um grito apavorado de uma mulher vindo da rua.
Vesti-me o mais rápido possível e corri em direção ao grito, com a intenção de ver quem corria perigo e verificar se eu poderia ajudar de alguma forma. Na verdade desejava ver se o causador de tanto pânico era a mesma pessoa que assassinou o tio de Katherine.
Aproximei-me, porém não pude enxergar logo o que estava acontecendo devido a uma aglomeração de pessoas no local. Só pude notar que havia uma mulher chorando, quase em estado de choque.
Abri caminho entre as pessoas a minha frente e, mais uma vez, a cena que vi ficou em minha mente durante anos. Era o velho bêbado que estava na taverna em uma das noites, o mesmo que me informou o que havia acontecido ao tio de Katherine. Seu corpo fora completamente destruído, não tinha nem sinal do que um dia foram suas pernas, naquele momento, completamente arrancadas de seu corpo. Havia sangue esparramado por todos os lados. Poucos ossos em seu corpo pareciam inteiros. Era como se ele tivesse sido arremessado contra uma parede de pedras. Nunca tinha visto nada como aquilo.
As pessoas a minha volta começaram a falar que o vilarejo estava amaldiçoado, que isso era coisa do demônio e que todos da vila estavam condenados.
Desviei meus olhos do corpo do bêbado por um instante e pensava em ir conversar com Katherine naquele momento, quando a vi observando de longe a situação, tentando não ser notada. Sua aparência não era a mesma das outras vezes em que nos vimos, toda aquela vitalidade e alegria se foram, sendo substituídas por uma expressão de ódio.
Ela não reparara que eu a via, porém, de qualquer forma, afastou-se do local, indo em direção a sua casa.
Segui-a de longe, por entre as casas, até um determinado ponto. Tentava não ser notado de forma alguma, quando, de repente, ela parou, ficou imóvel no meio da rua e, sem olhar para trás, disse num tom suave, sem medo e confiante:
— Reid, sei que está aí! Siga-me!
Ela não me vira, mas sabia que eu estava ali de alguma forma. “Como isso é possível?”, perguntei-me. Sai de trás de um barril, no qual estava escondido enquanto a seguia, e, sem dizer uma palavra, fui para o seu lado. Simplesmente não sabia o que dizer.
— Não se preocupe! Não é a mim que precisa temer! – ela disse séria, com seus olhos completamente voltados para o horizonte, caminhando lentamente como se não visse nada a sua volta.
Katherine me conduziu até uma clareira em um bosque próximo ao vilarejo. Ela parou, encarou-me e disse seriamente:
— Você precisa deixar a cidade agora, Reid! Todos aqui correm perigo e não quero que…
— De que tipo de perigo você está falando? Eu sei que você sabe o que está acontecendo por aqui, então não me venha com essa conversa de que eu tenho que deixar a cidade agora! É melhor me contar o que está acontecendo!
Nem eu mesmo acreditei na forma com que falei com ela, mas era porque eu estava nervoso. Sabia que Katherine escondia algo e eu não poderia simplesmente deixá-la correr perigo. Se eu pudesse ajudá-la, eu o faria.
— Você não tem ideia do que está acontecendo, Reid! Isso aqui não é brincadeira! Duas pessoas já morreram e se… se… se eu não fizer algo, muitas mais morrerão…
— Então quanto mais rápido você responder às minhas perguntas, mais rápido poderei te ajudar! Quem está fazendo isso? Por que é você quem tem que fazer algo para isso parar?
— Desculpa, Thomas, mas eu não posso te envolver nisso! Não seria justo! – uma lágrima escorreu de seus olhos, seu rosto era de pura aflição.
Eu a abracei forte, fazendo carinho em seus cabelos dourados, olhei em seus olhos e pedi:
— Deixe-me ajudá-la! Não se preocupe comigo! É isso que eu quero! Quero poder ajudá-la! E se isso é algo tão perigoso, você acha mesmo que eu iria simplesmente me acalmar e ir embora daqui, largando-a dessa forma? – dei um pequeno sorriso para demonstrar que estaria com ela a qualquer custo.
— Tem coisas que você não entenderia, Thomas! Eu não sou o que pareço ser. Eu faço e vejo coisas que você nunca imaginou existir… Eu tenho…
Ela parou de falar subitamente e, de novo, pareceu olhar o horizonte, como se eu não estivesse mais ali.
Senti um forte cheiro, um cheiro pútrido, azedo. Enjei-me na mesma hora. Tentei me controlar o quanto pude, porém o cheiro era insuportável e tive que cobrir o rosto com a manga da camisa. Procurei à minha volta tentando descobrir de onde vinha aquele cheiro, mas não pude ver nada, só sentia que havia algo por perto.
— Vamos! Você precisa sair daqui agora! – disse Katherine num tom nervoso – Vá! – empurrando-me com força, fazendo-me cair a metros de distância de onde eu estava. Mal consegui acreditar que ela possuía tamanha força.
Naquele instante, Katherine retirou de entre seus seios um pequeno medalhão e o arremessou para mim.
— Coloque em volta de seu pescoço! Isso irá protegê-lo! Vamos, coloque agora! –mandou em tom imperativo, porém, ao mesmo tempo, assustada, esperando que algo ruim acontecesse a qualquer momento.
Peguei o medalhão que caíra no chão, próximo de onde eu estava. Ele era feito de prata, em formato circular e havia um pentagrama com um olho fechado em seu centro. Senti uma sensação estranha ao tocá-lo. Era como se eu perdesse um pouco de minhas forças. Coloquei-o em volta de meu pescoço, como ela pedira, em partes por curiosidade e também por confiar naquela pessoa sobre a qual eu nada sabia.
— Agora vá! Esconda-se! – ela ordenou novamente.
Corri até uma grande árvore e me escondi atrás dela. De lá pude ver Katherine tirar um longo punhal, que estava escondido dentro da manga de seu vestido, e se dirigir para o centro da clareira.
— Vamos criatura imunda! Eu sei que você está por perto nos observando! Apareça agora ou farei com que mostre sua cara a força! – gritou Katherine com ódio, transtornada, nem parecia a mesma Katherine de antes.
Nada aconteceu. Nem um sinal de algo próximo. Um silêncio total tomou conta do lugar. Parecia até que os animais do bosque haviam partido. Nenhum vento soprava. Nada… Era como se o tempo tivesse parado naquele momento.
Ela berrou novamente:
— Esse é meu último aviso, Ser das Trevas! Apareça por sua própria vontade ou irá se confrontar com MINHA vontade! – ela respirou profundamente. Seus olhos acompanhavam pontos na clareira, onde eu nada enxergava.
Nada aconteceu. O silêncio total continuou, porém, em mim, a sensação de que algo estava perto e nos observando aumentava. Talvez inconscientemente, devido à certeza que Katherine tinha de haver algo lá.
— Eu avisei, criatura! Agora obrigarei você a aparecer e lhe garanto que não irá aparecer para mais ninguém… Nunca mais!
Katherine, com o punhal, cortou a palma de sua mão esquerda de uma ponta a outra. Nenhum sinal de dor ou qualquer tipo de emoção passou pelo seu rosto. Ela atirou o punhal sujo de sangue no chão, ao seus pés, cravando-o no solo úmido do bosque. Com o sangue que escorria, desenhou símbolos que eu nunca vira nas costas de sua mão direita e em sua testa. Depois gritou:
— Spiritus imundus, mostre a sua face perante mim! Meu sangue o invoca! Minha vontade o fará concreto e minha força o destruirá!
Os símbolos desenhados em sua mão e testa começaram a brilhar em um tom avermelhado. Ela socou a adaga cravada no chão com fúria, usando seu punho direito. Sua força era tamanha que a arma sumiu completamente, enterrada no solo. O silêncio caiu novamente sobre o local e, aparentemente, nada aconteceu.
De repente, um fino facho de luz brotou de onde a adaga foi enterrada. Toda a vegetação em volta do buraco começou a murchar e a temperatura da clareira se elevou absurdamente a ponto de fazer meu corpo começar a suar quase que instantaneamente.
Pequenos focos de incêndio fizeram com que partes da vegetação secasse. Katherine permaneceu imóvel no centro da clareira, enquanto tudo a sua volta secava. E eu, um pouco mais longe da área afetada, apenas observava imóvel.
Notei que da fumaça gerada pelos pequenos focos de incêndio começava a surgir a silhueta de um ser com formato humanóide. Ainda não conseguia distinguir detalhes àquela distância.
— Viu?! Eu disse que você se mostraria a mim de uma forma ou de outra, pequeno Myistf’s – disse Katherine em um tom sarcástico, dando seu sorriso torto para aquele ser que surgia a sua frente, completamente sem medo, como se tivesse a certeza de sua superioridade.
A silhueta terminou de se formar e se transformou em uma criatura com, pelo menos, o dobro do tamanho de Katherine, tanto em altura quanto em músculos.
Seu corpo era cinza e vigoroso. Feridas purulentas brotavam em algumas partes e, logo em seguida, se fechavam, para então aparecerem em outra parte, deixando um cheiro podre no ar. Em seu rosto, olhos negros, sem sinal de íris. Não possuía nariz ou algo que fizesse lembrar isso. Sua boca tinha centenas de minúsculos dentes serrilhados, porém com dois grandes caninos na parte inferior. Em seus braços e suas mãos, longas garras de unhas negras.
O ser fixou seu olhar nos olhos de Katherine e começou a emitir sons que lembravam risadas, mas num tom extremamente gutural.
— Então é você que tem me rastreado todas as noites, pequena caçadora?! O que acha que pode fazer contra mim, sua vadiazinha?
Katherine não emitiu uma palavra. Estendeu a mão em direção ao facho de luz, que ainda era emitido do buraco onde o punhal se encontrava, e proferiu uma palavra:
— Ignus!
Com isso, o punhal começou a surgir da terra no formato de uma grande espada. Katherine tocou em sua empunhadura e sorriu:
— “O que posso fazer?”, você me pergunta, seu verme?! Eu exterminarei você!
Retirando a espada cravada na terra, Katherine apontou-a, naquele momento flamejante, em direção ao ser.
— Vamos começar!