III – Revelações

Posted: 13/10/2010 in Saga Reid
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“Hunt you down without mercy
Hunt you down all nightmare long
Feel us breathe upon your face
Feel us shift, every move we trace
Hunt you down without mercy
Hunt you down all nightmare long”

Metallica – All Nightmare Long

.

Estava confuso com tudo o que ouvia, afinal, quem era ela? O que aconteceu com sua mãe anos atrás? O que diabos ela havia se tornado? E por que não podia parar?

Encostei-me contra a parede da casa, tentando pensar em alguma coisa, querendo me acalmar, mas não conseguia imaginar respostas para isso. Decidi que o melhor agora não seria interromper essa conversa batendo à porta da casa, então resolvi voltar para a hospedaria.

Não consegui dormir naquela noite, ainda tentando imaginar o que teria feito aquilo ao tio de Katherine, ou Katz, como seu pai a havia chamado.

O dia estava clareando, olhei pela janela do quarto e já podia ver o movimento dos trabalhadores que iniciavam sua árdua jornada nos campos. Não conseguia mais ficar naquele quarto com tantas perguntas, precisava conversar com ela. Subitamente ouvi um grito apavorado de uma mulher vindo da rua.

Vesti-me o mais rápido possível e corri em direção ao grito, com a intenção de ver quem corria perigo e verificar se eu poderia ajudar de alguma forma. Na verdade desejava ver se o causador de tanto pânico era a mesma pessoa que assassinou o tio de Katherine.

Aproximei-me, porém não pude enxergar logo o que estava acontecendo devido a uma aglomeração de pessoas no local. Só pude notar que havia uma mulher chorando, quase em estado de choque.

Abri caminho entre as pessoas a minha frente e, mais uma vez, a cena que vi ficou em minha mente durante anos. Era o velho bêbado que estava na taverna em uma das noites, o mesmo que me informou o que havia acontecido ao tio de Katherine. Seu corpo fora completamente destruído, não tinha nem sinal do que um dia foram suas pernas, naquele momento, completamente arrancadas de seu corpo. Havia sangue esparramado por todos os lados. Poucos ossos em seu corpo pareciam inteiros. Era como se ele tivesse sido arremessado contra uma parede de pedras. Nunca tinha visto nada como aquilo.

As pessoas a minha volta começaram a falar que o vilarejo estava amaldiçoado, que isso era coisa do demônio e que todos da vila estavam condenados.

Desviei meus olhos do corpo do bêbado por um instante e pensava em ir conversar com Katherine naquele momento, quando a vi observando de longe a situação, tentando não ser notada. Sua aparência não era a mesma das outras vezes em que nos vimos, toda aquela vitalidade e alegria se foram, sendo substituídas por uma expressão de ódio.

Ela não reparara que eu a via, porém, de qualquer forma, afastou-se do local, indo em direção a sua casa.

Segui-a de longe, por entre as casas, até um determinado ponto. Tentava não ser notado de forma alguma, quando, de repente, ela parou, ficou imóvel no meio da rua e, sem olhar para trás, disse num tom suave, sem medo e confiante:

— Reid, sei que está aí! Siga-me!

Ela não me vira, mas sabia que eu estava ali de alguma forma. “Como isso é possível?”, perguntei-me. Sai de trás de um barril, no qual estava escondido enquanto a seguia, e, sem dizer uma palavra, fui para o seu lado. Simplesmente não sabia o que dizer.

— Não se preocupe! Não é a mim que precisa temer! – ela disse séria, com seus olhos completamente voltados para o horizonte, caminhando lentamente como se não visse nada a sua volta.

Katherine me conduziu até uma clareira em um bosque próximo ao vilarejo. Ela parou, encarou-me e disse seriamente:

— Você precisa deixar a cidade agora, Reid! Todos aqui correm perigo e não quero que…

— De que tipo de perigo você está falando? Eu sei que você sabe o que está acontecendo por aqui, então não me venha com essa conversa de que eu tenho que deixar a cidade agora! É melhor me contar o que está acontecendo!

Nem eu mesmo acreditei na forma com que falei com ela, mas era porque eu estava nervoso. Sabia que Katherine escondia algo e eu não poderia simplesmente deixá-la correr perigo. Se eu pudesse ajudá-la, eu o faria.

— Você não tem ideia do que está acontecendo, Reid! Isso aqui não é brincadeira! Duas pessoas já morreram e se… se… se eu não fizer algo, muitas mais morrerão…

— Então quanto mais rápido você responder às minhas perguntas, mais rápido poderei te ajudar! Quem está fazendo isso? Por que é você quem tem que fazer algo para isso parar?

— Desculpa, Thomas, mas eu não posso te envolver nisso! Não seria justo! – uma lágrima escorreu de seus olhos, seu rosto era de pura aflição.

Eu a abracei forte, fazendo carinho em seus cabelos dourados, olhei em seus olhos e pedi:

— Deixe-me ajudá-la! Não se preocupe comigo! É isso que eu quero! Quero poder ajudá-la! E se isso é algo tão perigoso, você acha mesmo que eu iria simplesmente me acalmar e ir embora daqui, largando-a dessa forma? – dei um pequeno sorriso para demonstrar que estaria com ela a qualquer custo.

— Tem coisas que você não entenderia, Thomas! Eu não sou o que pareço ser. Eu faço e vejo coisas que você nunca imaginou existir… Eu tenho…

Ela parou de falar subitamente e, de novo, pareceu olhar o horizonte, como se eu não estivesse mais ali.

Senti um forte cheiro, um cheiro pútrido, azedo. Enjei-me na mesma hora. Tentei me controlar o quanto pude, porém o cheiro era insuportável e tive que cobrir o rosto com a manga da camisa. Procurei à minha volta tentando descobrir de onde vinha aquele cheiro, mas não pude ver nada, só sentia que havia algo por perto.

— Vamos! Você precisa sair daqui agora! – disse Katherine num tom nervoso – Vá! – empurrando-me com força, fazendo-me cair a metros de distância de onde eu estava. Mal consegui acreditar que ela possuía tamanha força.

Naquele instante, Katherine retirou de entre seus seios um pequeno medalhão e o arremessou para mim.

— Coloque em volta de seu pescoço! Isso irá protegê-lo! Vamos, coloque agora! –mandou em tom imperativo, porém, ao mesmo tempo, assustada, esperando que algo ruim acontecesse a qualquer momento.

Peguei o medalhão que caíra no chão, próximo de onde eu estava. Ele era feito de prata, em formato circular e havia um pentagrama com um olho fechado em seu centro. Senti uma sensação estranha ao tocá-lo. Era como se eu perdesse um pouco de minhas forças. Coloquei-o em volta de meu pescoço, como ela pedira, em partes por curiosidade e também por confiar naquela pessoa sobre a qual eu nada sabia.

— Agora vá! Esconda-se! – ela ordenou novamente.

Corri até uma grande árvore e me escondi atrás dela. De lá pude ver Katherine tirar um longo punhal, que estava escondido dentro da manga de seu vestido, e se dirigir para o centro da clareira.

— Vamos criatura imunda! Eu sei que você está por perto nos observando! Apareça agora ou farei com que mostre sua cara a força! – gritou Katherine com ódio, transtornada, nem parecia a mesma Katherine de antes.

Nada aconteceu. Nem um sinal de algo próximo. Um silêncio total tomou conta do lugar. Parecia até que os animais do bosque haviam partido. Nenhum vento soprava. Nada… Era como se o tempo tivesse parado naquele momento.

Ela berrou novamente:

— Esse é meu último aviso, Ser das Trevas! Apareça por sua própria vontade ou irá se confrontar com MINHA vontade! – ela respirou profundamente. Seus olhos acompanhavam pontos na clareira, onde eu nada enxergava.

Nada aconteceu. O silêncio total continuou, porém, em mim, a sensação de que algo estava perto e nos observando aumentava. Talvez inconscientemente, devido à certeza que Katherine tinha de haver algo lá.

— Eu avisei, criatura! Agora obrigarei você a aparecer e lhe garanto que não irá aparecer para mais ninguém… Nunca mais!

Katherine, com o punhal, cortou a palma de sua mão esquerda de uma ponta a outra. Nenhum sinal de dor ou qualquer tipo de emoção passou pelo seu rosto. Ela atirou o punhal sujo de sangue no chão, ao seus pés, cravando-o no solo úmido do bosque. Com o sangue que escorria, desenhou símbolos que eu nunca vira nas costas de sua mão direita e em sua testa. Depois gritou:

Spiritus imundus, mostre a sua face perante mim! Meu sangue o invoca! Minha vontade o fará concreto e minha força o destruirá!

Os símbolos desenhados em sua mão e testa começaram a brilhar em um tom avermelhado. Ela socou a adaga cravada no chão com fúria, usando seu punho direito. Sua força era tamanha que a arma sumiu completamente, enterrada no solo. O silêncio caiu novamente sobre o local e, aparentemente, nada aconteceu.

De repente, um fino facho de luz brotou de onde a adaga foi enterrada. Toda a vegetação em volta do buraco começou a murchar e a temperatura da clareira se elevou absurdamente a ponto de fazer meu corpo começar a suar quase que instantaneamente.

Pequenos focos de incêndio fizeram com que partes da vegetação secasse. Katherine permaneceu imóvel no centro da clareira, enquanto tudo a sua volta secava. E eu, um pouco mais longe da área afetada, apenas observava imóvel.

Notei que da fumaça gerada pelos pequenos focos de incêndio começava a surgir a silhueta de um ser com formato humanóide. Ainda não conseguia distinguir detalhes àquela distância.

— Viu?! Eu disse que você se mostraria a mim de uma forma ou de outra, pequeno Myistf’s – disse Katherine em um tom sarcástico, dando seu sorriso torto para aquele ser que surgia a sua frente, completamente sem medo, como se tivesse a certeza de sua superioridade.

A silhueta terminou de se formar e se transformou em uma criatura com, pelo menos, o dobro do tamanho de Katherine, tanto em altura quanto em músculos.

Seu corpo era cinza e vigoroso. Feridas purulentas brotavam em algumas partes e, logo em seguida, se fechavam, para então aparecerem em outra parte, deixando um cheiro podre no ar. Em seu rosto, olhos negros, sem sinal de íris. Não possuía nariz ou algo que fizesse lembrar isso. Sua boca tinha centenas de minúsculos dentes serrilhados, porém com dois grandes caninos na parte inferior. Em seus braços e suas mãos, longas garras de unhas negras.

O ser fixou seu olhar nos olhos de Katherine e começou a emitir sons que lembravam risadas, mas num tom extremamente gutural.

— Então é você que tem me rastreado todas as noites, pequena caçadora?! O que acha que pode fazer contra mim, sua vadiazinha?

Katherine não emitiu uma palavra. Estendeu a mão em direção ao facho de luz, que ainda era emitido do buraco onde o punhal se encontrava, e proferiu uma palavra:

Ignus!

Com isso, o punhal começou a surgir da terra no formato de uma grande espada. Katherine tocou em sua empunhadura e sorriu:

— “O que posso fazer?”, você me pergunta, seu verme?! Eu exterminarei você!

Retirando a espada cravada na terra, Katherine apontou-a, naquele momento flamejante, em direção ao ser.

— Vamos começar!

II – A Morte

Posted: 13/10/2010 in Saga Reid
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Estava sem palavras, completamente pasmo por ela estar ali, na minha frente e com o meu anel. Esperava reavê-lo com o velho à noite, sendo esse mais um pretexto para voltar à taverna, mas isso? Isso já era muito melhor do que eu poderia imaginar.

— Não vai me convidar para entrar, senhor Reid?

Eu ainda embasbacado pelo o que acontecia, nem notei que estava sem camisa e com “calças de dormir”, por assim dizer.

— De-desculpe-me! Não esperava que você fosse aparecer, senhorita McTyler! Por favor, entre…

Ela deu um sorriso, um lindo sorriso “meio torto”, com um canto só dos lábios, meio misterioso. Sorriso esse que iria me cativar eternamente.

— Não prefere se vestir em trajes mais adequados? – falou apontando para minhas “calças de dormir” – Ou se preferir, eu posso entrar assim mesmo.

Ela entrou no quarto e encostou a porta atrás dela, olhando dentro dos meus olhos, como se tentasse ver quem eu realmente era e o que queria somente investigando meus olhos, olhando minha alma…

Fiquei envergonhado por estar vestido em trajes tão inadequados na frente de tão bela mulher e peguei logo minha camisa que estava pendurada em um mancebo próximo à porta. Tentei achar a calça o mais rápido possível, porém não a encontrei e, realmente, não lembrava onde a havia deixado na noite anterior.

— Não se preocupe, Thomas, não ficarei por muito tempo. Na verdade, só vim lhe entregar o seu anel!

Eu a interrompi perguntando, completamente espantado.

— Como você sabe o meu nome? Eu venho à cidade há anos recolher os impostos, mas nunca saio de dentro da carruagem da realeza… Como você poderia saber que eu sou Thomas Reid?

Ela deu uma boa risada, brincando com o anel por entre os dedos, como se fosse uma moeda nas mãos de um prestidigitador.

— Ora, senhor Reid, se assim preferir… Você vai dois dias seguidos à taverna do meu tio, sendo que, no primeiro dia, não tirou os olhos de mim enquanto servia aquelas pessoas, e, no dia seguinte, volta vestindo roupas que qualquer pessoa daqui trabalharia a vida inteira para conseguir comprar. E ainda deixa de propósito seu anel de família no banco do aposento… E devo dizer, com certeza, meu tio não é nada atraente. Então, se você não estava querendo chamar a atenção dele e minha irmã é pouco mais que uma criança, devo presumir que era a minha atenção que você tentava atrair. Estou enganada?

Engasguei de nervoso. Nunca poderia imaginar ter dado tão na cara assim que eu só estava lá por causa dela. Fiquei sem reação, sem saber o que dizer e realmente impressionado pela forma com que ela notou tudo isso. E me perguntei novamente: “Essa garota é real?”

Ela estalou os dedos, acordando-me de meus pensamentos…

— Vai ficar aí sem falar nada? O que me diz? Estou certa, não estou? - ela disse novamente dando risada, como se fosse tudo uma grande piada.

— Si-sim… Está certa! – tentei firmar minha voz para não parecer ainda mais idiota.

Recompondo-me, olhei fixamente nos olhos dela, sério, querendo demonstrar que não era uma piada e, muito menos, que eu era mais um “cara qualquer” que estava ali só por “uma noite” com ela.

— Sim, Katherine! Eu vim de longe porque, desde o dia que eu lhe vi na taverna pela primeira vez, não consegui tirá-la de meus pensamentos. Precisava conhecer você!

Novamente aquele sorriso torto brotou em seus lábios. Ela parou de brincar com o anel e o atirou para mim, enquanto abria a porta do quarto.

— Vejo que também sabe o meu nome, senhor Reid! Preciso ir agora…

Ela saiu do quarto e, no último instante, antes da porta bater, ela a abriu novamente.

— Até de noite… – com seu sorriso torto nos lábios – Creio que vá aparecer novamente essa noite, não é mesmo?

Antes que eu pudesse responder, a porta se fechara.

*************

O dia custou a passar, fiquei a maior parte do tempo olhando para o teto do quarto, deitado na cama, esperando que anoitecesse o mais rápido possível só para revê-la.

Comecei a me vestir calmamente. Coloquei meu anel no dedo e fui à taverna. Tinha a esperança de, naquela noite, poder conversar com ela um pouco mais, pois ela já sabia quem eu era e, praticamente, “me convidou” para ir até lá.

Sai da hospedaria em direção à taverna com um mau pressentimento, como se alguma coisa não estivesse certa naquela noite. Estava um pouco angustiado.

Conforme fui me aproximando da taverna, fui tendo a certeza de que algo estava errado. Não havia pessoas na porta, não havia fumaça saindo pela chaminé da lareira. Estava tudo escuro, nenhuma lamparina acesa. Uma pessoa passou ao meu lado e não pude deixar de notar a expressão assustada de seu rosto, olhando para todos os lados, como se estivesse com medo de algo. Procurei alguém por perto para perguntar o que havia acontecido e avistei um dos bêbados da noite anterior, que estava caído na mesa quando fui embora.

— O que aconteceu? Por que a taverna está fechada? - perguntei ao bêbado, ansioso e angustiado ao mesmo tempo.

Novamente o mau pressentimento tomou conta de mim.

— Você não soube, garoto? O velho morreu! Foi encontrado em sua casa essa tarde por sua sobrinha. Foi horrível! O estado que ele estava…

O bêbado deu um grande gole em uma garrafa, notavelmente querendo se “esquecer” de algo.

— Diga, vamos! Diga-me! O que houve? Katherine está bem? – segurei o colarinho do bêbado com força, olhando nos olhos dele, tentando intimidá-lo.

— Calma, garoto, CALMA! – dando um soco em minha mão, desvencilhando-se do agarrão – Ela está bem! Não aconteceu nada com ela!

— Então, conte-me! O que aconteceu com o senhor McTyler? Diga!

— Ele foi encontrado essa manhã, pela senhorita Katherine, morto em sua casa, como eu estava te dizendo. Seu peito estava aberto, como se suas costelas tivessem sido puxadas de dentro para fora, e havia marca de uma mordida em seu pescoço. Tinha sangue por todo lado, garoto, foi horrível! Horrível mesmo! Provavelmente algum animal entrou na casa e atacou o senhor McTyler enquanto ele dormia.

Larguei o bêbado sentado no chão e sai correndo em direção à hospedaria. Precisava descobrir onde Katherine morava para saber se ela estava bem e se realmente nada havia acontecido com ela.

Cheguei à hospedaria, quase sem fôlego, parte por ter corrido o mais rápido possível e parte pelo desespero de achar que algo de mau havia acontecido a ela.

— Por favor, senhora McLoud, diga-me, onde a senhorita Katherine McTyler mora! Preciso vê-la para saber se ela está bem depois do que aconteceu ao tio dela. – falei ofegante para a dona da hospedaria, quase sem conseguir ordenar os pensamentos.

— Acalme-se, senhor! Acalme-se! Ela mora a duas ruas daqui, naquela direção, – disse apontando para o lado norte da vila - em uma casa pequena, com alguns arbustos ao redor. Não tem como errar!

Mal deixei a mulher terminar de falar e fui correndo na direção indicada. Precisava vê-la a qualquer custo, ter certeza de que não havia se machucado.

*************

Realmente não havia como errar. A casa era meio isolada das outras e completamente cercada por arbustos de azevinho. Havia uma pequena chaminé no alto do telhado, de onde saia uma fina fumaça branca. Era, apesar de tudo, uma casa simples, construída em madeira, com uma janela à direita.

Conforme fui me aproximando, diminuí o passo, tentando me acalmar para que, caso ela estivesse em choque, eu pudesse confortá-la.

Deu para ver pelas sombras geradas pela lamparina, que ela não estava sozinha em casa e, quanto mais me aproximava, mais podia ouvir a discussão.

Instintivamente reduzi ainda mais o passo. Para não ser notado, fui me aproximando lentamente da janela da casa e me abaixei por entre os arbustos, tentando ouvir o que conversavam, querendo saber se Katherine estava em perigo.

— O que você quer que eu faça, Katz?! Eu não tenho como abandonar essa vida! Olha o que aconteceu com sua mãe anos atrás! Eu não posso parar enquanto não acabar com… com… com essas coisas! – dizia uma voz grave, soando um pouco irritado e, ao mesmo tempo, determinado.

— Mas, pai, olha o que aconteceu com a mamãe e agora com o tio! Por que temos que continuar com isso? Temos que parar!

— Eu não posso parar enquanto não encontrar quem fez aquilo com ela! Você sabe muito bem disso e prometeu me ajudar a encontrar!

— Eu sei muito bem o que prometi e, por isso, não te abandonei até hoje e mandei para longe a pequena Sissy. Novamente levaram alguém próximo a nós. Vai esperar acontecer o mesmo com ela? – dizia Katherine, impaciente e chorando.

— Não! Isso NUNCA! Não vou deixar que algo aconteça com você ou com a Sissy! Isso eu prometo a você! Mas sem sua ajuda, não conseguirei ir a diante… Eu preciso de sua ajuda, Katz!

— Está certo, pai… Está certo! Desculpe-me! Realmente não há como parar. Isso sempre vai nos encontrar, não importa onde estivermos, sempre estará atrás de nós e nós sempre estaremos atrás deles.

— É, infelizmente, acho que você tem razão, querida! Você sabe o que nos tornamos e o que precisamos fazer. Não há como parar agora…

— Um dia isso vai parar…

 

I – Esperança

Posted: 12/10/2010 in Saga Reid
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” I remember a time
My frail, virgin mind
Watched the crimson sunrise
Imagined what it might find
Life was filled with wonder
I felt the warm wind blow
I must explore the boundaries
Transcend the depth of winter’s snow”

Dream Theater – A Change of Seasons

.

Estava frio quando as primeiras estrelas surgiram no céu, uma fina garoa batia em meu rosto, fazendo parecer que iria congelar a qualquer momento. Lembro que tudo o que queria era chegar ao “McTyler’s Tavern”, um pequeno bar do vilarejo, aonde as pessoas iam em noites como essas para desfrutar de uma boa cerveja e comer um ótimo pernil de porco assado. Eu, pessoalmente, acostumado com o que alguém de minha posição social podia desfrutar, nunca achei a cerveja tão boa, ou o porco tão suculento como aquelas pessoas simples achavam. Mas, de qualquer forma, eu não iria essa noite para apreciar os “comes e bebes” do local, não… Não era por isso. Iria lá somente para tentar vê-la novamente.

Avistei a taverna de longe, senti um arrepio na espinha, acompanhado de um frio na boca do estômago. Recordo-me que me perguntei se era devido ao frio intenso ou se estava novamente passando por “aquilo”. Apenas sorri. Eu já sabia a resposta.

Entrei na taverna e a primeira coisa que pensei foi “aqui definitivamente servem porcos”. Não que a taverna fosse suja, mas, se fosse comparar aos lugares que eu poderia estar naquele momento, definitivamente aquele local seria chamado de pocilga.

Olhei a minha volta, as poucas mesas perto da lareira à esquerda já estavam ocupadas, sobrando somente uma escondida no canto direito da sala, longe do balcão. Sentei-me à mesa, o frio insistente não passava, pensei que já era loucura ir a um lugar como aquele por alguém que mal sabia que eu existia. Não a vi em lugar algum. Naquele dia quem anotava os pedidos dos clientes era um velho senhor, aparentemente, tão velho quanto as pedras com que aquela taverna fora construída, e, no balcão, uma jovem garota, talvez neta do ancião.

Esperei por um tempo, o frio cada vez mais incomodo, e resolvi chamar o ancião, esperando que o vinho da casa fosse melhor que a cerveja experimentada na noite anterior.

Ergui a mão ao notar que o velho passava por perto, tentando ser notado.

— Com sua licença, senhor! – falei timidamente, mais para mim mesmo do que tentando chamar a atenção de alguém, porém o velho conseguiu me ouvir. Juro que me surpreendi…

— Com sua licença, senhor? – tão surpreso quanto eu, quando descobri que ele me ouvia – Definitivamente você não é daqui, meu jovem. E a julgar pelas suas roupas, tão pouco deveria estar aqui. Mas, já que não estou aqui para saber quem você é ou de onde vem, o que deseja?

— Sim, não sou daqui, senhor. Vim do condado vizinho, estou só passando uns dias no vilarejo antes de voltar para casa.

Menti! Eu realmente não era daquele lugar, porém não havia como, simplesmente, dizer ao velho que eu tinha viajado duas horas a cavalo somente para reencontrar a garçonete que havia visto na noite anterior, quando chegara à cidade para recolher os impostos.

— Poderia me trazer um pouco de vinho quente? Estou congelando aqui. Ah! Um pouco de pernil também será bem aceito.

Realmente eu estava congelando ali, e como estava tarde para cavalgar de volta para casa, resolvi que seria melhor me aquecer por um tempo, antes de tentar achar uma hospedaria, se é que havia alguma naquele vilarejo.

— Trarei sua comida assim que for possível, jovem! – falou o velho, já se afastando.

Observei o velho atravessar o salão, movendo-se vagarosamente, como se cada ano de vida pesasse toneladas sobre seus ombros. Senti uma certa pena do ancião, tendo que trabalhar até essa idade, sem ter uma expectativa de melhora na vida. Mas meus pensamentos foram afastados quando o velhinho chegou à porta que dava para a cozinha, depois do balcão. Ela estava lá, na cozinha. Pude vê-la só de relance. Por um momento achei que meus olhos estavam me traindo, mas não, tinha certeza que ela estava lá, e, ao vê-la, não pude conter um sorriso. Só restava saber como falar com ela.

*************

Passou-se um bom tempo até que o vinho e o porco chegassem a minha mesa. Nesse tempo, pude vê-la mais duas vezes, sempre muito rápido, quando ela ia até o balcão entregar um dos pedidos ao “atendente”.

Já estava ficando tarde, estava perdendo as esperanças de falar com ela naquela noite, mas de repente tive uma ideia. Só não sabia se era uma boa ideia.

Chamei o “garçom” novamente:

— Velho, poder vir aqui? – disse um pouco mais alto que da outra vez.

— “Velho”? Vejo que o vinho já está fazendo efeito, jovem. Pode me chamar de McTyler! Sou o dono dessa taverna. – disse o velho, sorrindo um bocado.

Talvez o vinho fizera efeito nele também.

— Poderia me trazer mais vinho e pernil? Realmente está muito delicioso! Quem fez essa carne? É uma das mais gostosas que já experimentei.

Exagerei um pouco, tentando parecer convincente.

— Trarei sua comida, garoto. Quem fez essa carne foi minha sobrinha, filha mais velha de meu irmão. Katherine é o nome dela.

— Realmente é muito boa a comida. – disse suavemente – Será que teria como eu falar com a cozinheira? Eu conheço pessoas da realeza, por assim dizer, e poderia levá-la para trabalhar para algum nobre na cidade.

O velho olhou-me com cara de poucos amigos e resmungou entre os dentes.

— Trarei sua comida daqui a pouco, mas não espere levar minha Katherine para lugar nenhum, está entendendo?

Notei certa fúria em seus olhos e imaginei quantos aproveitadores já haviam usado de “estratégias” parecidas para conseguir algo com ela.

***************

A taverna foi se esvaziando. Na verdade, só restavamos dois bêbados e eu. Estava empanturrado de porco e vinho, quando a porta da cozinha se abriu novamente.

Era ela, linda, mesmo para alguém que trabalhou em uma cozinha a noite inteira, sem descanso e privada de sono. Seus cabelos loiros e lisos brilhavam num tom dourado sob as luzes das lamparinas. Era alta, magra, com seios fartos… Lembro-me até hoje de que seu decote me hipnotizava tanto quanto seus olhos verdes.

De repente, ouvi um barulho em minha mesa e acordei de meus sonhos. Era o velho que estava parado à minha frente e nem sequer havia percebi que ele se aproximara.

— Vamos, garoto, está tarde e já estamos fechando! Você disse que não é daqui, então, o máximo que posso fazer por você, é indicar a hospedaria que fica na maior casa, à direita daqui. Se tiver sorte de achar um quarto onde consiga dormir, aproveite, mas agora, você deve sair!

Peguei algumas moedas e coloquei sobre a mesa, enquanto o velho já “corria” para ajudar a sua “querida Katherine” com um dos bêbados que não acordava. Então tive uma ideia!

Tirei meu anel! Um anel de prata com o símbolo da família Reid incrustado. Pensei mais uma vez que já era loucura demais, porém, ao mesmo tempo, era mais forte do que eu. Era algo que eu precisava fazer, e, assim, deixei meu anel em cima do banco, saindo da taverna em seguida.

Fui para a hospedaria…

Não recordo muito bem como cheguei à hospedaria, nem como entrei no quarto, só lembro que era um dos piores quartos em que dormi em minha vida. Com seus colchões de palha fedendo a mofo e com famílias inteiras de pulgas vivendo neles, e somente algumas peles de carneiro para aquecer do frio. Com certeza, o efeito de algumas doses do vinho me ajudaram a dormir naquela noite. Inacreditavelmente dormi bem, aliviado por vê-la novamente, e, ao mesmo tempo, sentindo-me um idiota por ter largado o anel de minha família a troco de “nada”. Ou ao menos assim eu pensava.

Pela manhã, acordei com batidas em minha porta. Pensei por um instante que alguém deveria criar uma lei contra pessoas que acordam as outras sem solicitação e que a pena deveria ser passível de decapitação.

Cobri a cabeça com o travesseiro de penas, mas as batidas na porta continuaram incessantemente.

Levantei-me furioso.

— Já vai! Já vai! – falei praticamente gritando e abri a porta.

— Desculpe-me se vim em má hora, senhor Reid, mas creio que isso lhe pertence!

Era ela… com o meu anel.

Prefácio

Posted: 29/06/2010 in Saga Reid
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Venho aqui escrever uma breve introdução do que poderá ser encontrado nesse blog. Não há intensão nenhuma de que alguém reconheça o que for escrito como “bom”. Para falar a verdade, não espero que muitas pessoas venham a ler ou comentar.

Pretendo, sem muita pressa, contar a vocês a história de Thomas Reid, Katherine McTyler e Christopher York, assim como apresentar novos personagens com o decorrer da trama.

Quero deixar claro que nada do que estiver escrito aqui foi planejado, simplesmente sento ao computador e vou escrevendo o que me vem à cabeça. As ideias aparecem na hora, não fico “perdendo” horas e horas pensando no que escrever.

Acredito que pouquíssimas pessoas irão ler essa história e esses poucos que lerem devem ser meus amigos mais próximos, então, para que a coisa fique um pouco mais divertida, pretendo criar um personagem para cada um de vocês, nem que seja só uma “participação especial” ou, para alguns, uma posição de maior importância. Vamos ver se conseguirei fazer isso.

Vocês já devem estar falando “chega de enrolação, sobre o que vai ser essa maldita história?”. Então vou tentar falar um pouquinho sobre o que se passa na minha cabeça.

A ideia inicial é escrever uma história baseado no “Mundo das Trevas”, da Editora White Wolf (espero que eles não leiam isso, senão serei processado =D ). Para aqueles que nunca ouviram falar sobre o “Mundo das Trevas”, vocês poderão se basear no filme “Underworld” só para ter uma noção de como o mundo funciona mais ou menos. Porém quero evitar cair no clichê “Guerra Vampiros x Lobisomens”. Mas, de qualquer forma, será um mundo como o dessas duas referências que falei.

A história começará com Thomas Reid, ainda em 1237, e mostrará como e porque ele se tornou o que viria a ser nos dias atuais. Não se desesperem, não pretendo contar 700 anos de história. Na verdade, essa parte “antiga” será mais uma introdução mesmo, sem muito aprofundamento, já que não ficarei pesquisando fatos históricos ou como era a vida na época.

Chega de falatório, senão o texto de hoje vai ficar muito grande, e vocês pararão de ler na metade. Agora vou só apresentar a vocês os dois personagens principais dessa primeira parte.

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São eles, Thomas Reid e Katherine McTyler.

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Nome: Thomas Reid

Idade Aparente: 28 anos

Data de Nascimento: 24/01/1237

Local de Nascimento: Inglaterra

Aparência aos 28 anos: 1,88m, magro, aparentemente não pratica exercícios físicos. Cabelos negros e bem aparados, olhos azuis claros, sem barba, notadamente membro da burguesia local. Facilmente notado em festas da nobreza, sempre despertou interesse e cobiça das donzelas, sendo tratado como “o genro que toda sogra gostaria de ter”, devido à grande riqueza, à beleza, ao respeito e à compaixão aos menos afortunados.

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Nome: Katherine McTyler

Idade Aparente: 23 anos

Data de Nascimento: 31/12/1242

Local de Nascimento: Escócia

Aparência aos 23 anos “reais”: 1,73m, magra, possuindo seios fartos e corpo que rivalizava com as mais belas nobres da corte. Tem cabelos loiros e lisos, olhos verdes esmeralda. Possui uma marca de nascença com o formato de uma cruz em sua nuca.

Camponesa, morava com o pai superprotetor em um pequeno vilarejo. Trabalhava parte do tempo em casa (na criação de vacas, por exemplo) e, durante à noite, ajudava na taverna de seu tio. Muito educada e tímida, ficava envergonhada a cada olhar que recebia dos fregueses da taverna, porém sabia se defender, caso necessário.

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Agradeço àqueles que irão ler e deixo avisado que podem tirar dúvidas, elogiar, xingar ou o que quiserem nos comentários.

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Abraço a todos.